Em resumo

  • Artrose: é uma doença da articulação inteira, e não só da cartilagem. Na Clínica Higashi Londrina, a avaliação olha para o desgaste e para o que pesa sobre ele.
  • Imagem e dor: o raio X mostra a estrutura, mas não mede a dor. Laudos parecidos podem corresponder a dores muito diferentes.
  • Um puxa o outro: peso, força muscular, glicemia, inflamação e sono influenciam a dor e se influenciam entre si.
  • A base do tratamento: informação sobre a doença, exercício com fortalecimento e perda de peso quando há excesso, como recomendam as diretrizes internacionais.
  • Complementos: PRP, ozonioterapia e procedimentos guiados por ultrassom podem entrar no plano, escolhidos na avaliação. A cirurgia é uma conversa para quando o tratamento bem feito não basta.

O que é a artrose e por que ela dói?

A artrose, ou osteoartrite, é uma doença da articulação inteira: a cartilagem se desgasta, mas o osso logo abaixo dela, a membrana que reveste a articulação, os ligamentos e os músculos ao redor também mudam, e a dor vem desse conjunto [2]. Ela é a forma mais comum de artrite em adultos.

Em 2020, cerca de 595 milhões de pessoas no mundo tinham artrose, o equivalente a 7,6% da população, e ela costuma aparecer depois dos 40 anos, ficando mais frequente com a idade [1]. Os locais mais atingidos são o joelho, o quadril, as mãos e a coluna.

De onde vem a dor

Uma dúvida comum é: "se a cartilagem não tem nervos, por que dói?". A cartilagem de fato não tem terminações nervosas. A dor vem das estruturas em volta dela [2]:

  • O osso abaixo da cartilagem, que passa a receber mais carga e reage a ela.
  • A membrana sinovial, que reveste a articulação e pode inflamar, causando inchaço e calor.
  • Ligamentos, tendões e músculos, que trabalham mais para estabilizar uma articulação que mudou.
  • O próprio sistema nervoso, que, depois de meses de dor, pode passar a amplificar os sinais.

Esse último ponto explica por que algumas pessoas sentem mais dor do que o desgaste sugere. O guia do tratamento da dor crônica explica esse mecanismo, chamado de sensibilização central, e como ele muda o plano de tratamento.

Os sinais mais típicos são dor que piora com o movimento e melhora com o repouso, rigidez curta ao acordar ou depois de ficar parado, estalos e, em algumas fases, inchaço.

O que o raio X e a ressonância mostram, e o que não mostram?

O raio X e a ressonância mostram a estrutura da articulação, como a redução do espaço entre os ossos e os "bicos de papagaio", mas não medem a dor: pessoas com imagens parecidas podem sentir dores muito diferentes. O diagnóstico da artrose é, antes de tudo, clínico, feito com a história e o exame físico [2].

Uma revisão sistemática de estudos populacionais mostrou o tamanho dessa distância. Entre pessoas com dor no joelho, a proporção que tinha artrose no raio X variou de 15% a 76%. Entre pessoas com artrose no raio X, a proporção que sentia dor variou de 15% a 81% [3]. Os autores concluíram que o raio X é um guia impreciso para prever quem terá dor ou limitação [3].

No laudoO que costuma indicarO que não diz sozinho
Redução do espaço articularPerda de cartilagem entre os ossosQuanto você sente de dor ou o que consegue fazer
Osteófitos ("bicos de papagaio")Reação do osso à mudança de cargaQue eles sejam a fonte da dor
Derrame articular (ressonância ou ultrassom)Líquido acumulado, muitas vezes ligado à inflamaçãoA causa da inflamação nem como ela vai evoluir
"Alterações degenerativas"Desgaste compatível com a idade ou com a cargaQue o desgaste explique toda a dor

Isso não torna o exame dispensável. A imagem ajuda a confirmar o diagnóstico, a acompanhar a evolução e a planejar procedimentos. Ela só precisa ser lida junto com o exame físico e com a sua história. Se você já tem raio X, ultrassom ou ressonância, leve laudos e imagens para a consulta.

Quais fatores pesam na artrose além do desgaste?

Além do desgaste, pesam na artrose o peso corporal, a força muscular, a glicemia, a inflamação de baixo grau e o sono, e esses fatores se influenciam: um puxa o outro. Por isso, tratar só a articulação costuma deixar parte do problema de fora.

  • Peso: a carga sobre o joelho se multiplica a cada passo. Num estudo com adultos com artrose de joelho e excesso de peso, cada quilo perdido se associou a cerca de quatro quilos a menos de força sobre o joelho a cada passo [7].
  • Força muscular: o músculo da coxa absorve e distribui a carga. Quando ele enfraquece, a articulação recebe o impacto mais diretamente.
  • Glicemia: uma metanálise encontrou a artrose mais frequente em pessoas com diabetes, e o diabetes mais frequente em pessoas com artrose, o que levou os autores a descrever um perfil "metabólico" da doença [8].
  • Inflamação: a gordura em excesso, principalmente a abdominal, produz substâncias inflamatórias que circulam pelo corpo e chegam às articulações.
  • Sono: a dor atrapalha o sono, e o sono ruim deixa o corpo mais sensível à dor no dia seguinte.

Um exemplo do dia a dia mostra o encadeamento: o joelho dói, você caminha menos, a coxa perde força, o peso sobe, a glicemia piora, e a mesma escada passa a doer mais. O caminho de volta segue a mesma lógica, e cada avanço ajuda o seguinte.

Na clínica, esses fatores entram na mesma avaliação. O check-up funcional da primeira consulta inclui a bioimpedância InBody e Seca, que separa músculo de gordura, e a calorimetria indireta, que mostra quanto o seu corpo gasta em repouso. São dados que ajudam a planejar o fortalecimento e o cuidado com o peso.

Qual é a base do tratamento da artrose?

A base do tratamento da artrose é informação sobre a doença, exercício com fortalecimento e, quando há excesso de peso, perda de peso: é o que as diretrizes da Osteoarthritis Research Society International (OARSI) chamam de tratamento central para a artrose de joelho [4]. As diretrizes do American College of Rheumatology também fazem recomendação forte para o exercício e para a perda de peso em quem tem artrose de joelho ou quadril e excesso de peso [5].

Perna fazendo exercício de fortalecimento com faixa elástica durante a fisioterapia
O fortalecimento dos músculos ao redor da articulação ajuda a dividir a carga e é parte central do tratamento da artrose.

Exercício e fortalecimento

Uma revisão Cochrane com dezenas de ensaios clínicos encontrou que o exercício reduz a dor e melhora a função na artrose de joelho, com efeito moderado logo após o tratamento [6]. O plano costuma combinar fortalecimento, exercício aeróbico de baixo impacto, mobilidade e equilíbrio, com a carga aumentada aos poucos. Na clínica, a fisioterapia é presencial e segue o plano definido na consulta.

Cuidado com o peso

Quando o excesso de peso faz parte do quadro, perder gordura e preservar músculo reduz a carga sobre as articulações e a inflamação. Esse cuidado pode seguir o modelo de emagrecimento com acompanhamento médico, com a nutrição como apoio, para que a perda de peso não venha à custa de massa muscular.

Remédios

Remédios para dor e inflamação podem fazer parte do plano em alguns momentos, prescritos e revistos na consulta, levando em conta as outras condições de saúde e os remédios que você já usa [4]. Eles ajudam a atravessar fases de mais dor, mas não substituem o movimento.

No programa de tratamento da dor da clínica, a artrose é acompanhada dentro desse modelo: a avaliação define o que vem primeiro, e a reabilitação começa sem esperar a dor zerar.

Que procedimentos podem entrar como complemento?

PRP, ozonioterapia e procedimentos guiados por ultrassom podem entrar como complemento da base do tratamento, principalmente quando a dor limita a reabilitação, e a escolha depende do exame físico, da imagem e do que já foi tentado. Nenhum deles ocupa o lugar do fortalecimento.

Plasma rico em plaquetas (PRP)

O PRP é preparado com o sangue do próprio paciente e aplicado no joelho. Os resultados dos estudos variam, e as diretrizes da OARSI não recomendam o PRP como rotina, pela baixa qualidade das evidências e pela falta de padronização dos preparos [4]. Por isso, ele é considerado em casos selecionados. O artigo sobre como o PRP é preparado e em que situações é indicado detalha esse cuidado.

Ozonioterapia

A ozonioterapia é a aplicação medicinal de uma mistura de oxigênio e ozônio, que age sobre a inflamação e as defesas antioxidantes do organismo. Uma revisão sistemática de ensaios clínicos na artrose de joelho descreveu a aplicação dentro da articulação como segura e com efeito encorajador na dor e na função no curto e médio prazo, e apontou a baixa qualidade metodológica da maioria dos estudos [9]. Veja como ela é usada na ozonioterapia para dor nas articulações e na coluna.

Procedimentos guiados por ultrassom

Nas aplicações dentro da articulação, o ultrassom mostra em tempo real o local e o trajeto da agulha. Isso ajuda a levar o PRP ou o ozônio ao ponto planejado, a desviar de vasos e nervos e a ver se há líquido acumulado na articulação.

O que costuma vir primeiro

  • Entender a doença e o que piora a dor
  • Fortalecimento e exercício com progressão
  • Cuidado com peso, glicemia e sono

O que pode ser somado

  • PRP em casos selecionados de artrose de joelho
  • Ozonioterapia no cuidado da dor e da inflamação
  • Aplicações guiadas por ultrassom

Quando a conversa passa a ser sobre cirurgia?

A conversa sobre cirurgia costuma começar quando a dor e a limitação continuam importantes mesmo depois de um tratamento conservador bem conduzido, e a decisão é tomada com a ortopedia, pesando benefícios e riscos no seu caso. Não há uma regra só de idade ou de imagem.

“A cirurgia deve ser reservada para quem não respondeu adequadamente a métodos menos invasivos.”

Hunter e Bierma-Zeinstra, 2019 [2]

Um ensaio clínico dinamarquês ajuda a entender essa decisão. Pessoas com artrose de joelho moderada a grave, elegíveis para prótese, foram divididas em dois grupos: um fez a cirurgia seguida de tratamento não cirúrgico, e o outro fez só o tratamento não cirúrgico, com exercício, orientação e cuidado com a alimentação. Os dois grupos melhoraram. O grupo operado melhorou mais, mas teve mais eventos adversos graves, e a maior parte do grupo não operado não fez a cirurgia ao longo do primeiro ano [10].

A leitura prudente é que a cirurgia tem o seu lugar, e que o tratamento não cirúrgico também traz melhora real. Quando a cirurgia passa a ser considerada, cuidar da força, do peso e da glicemia antes dela continua fazendo sentido, porque esses fatores pesam também na recuperação.

Como é o acompanhamento da artrose?

A artrose é acompanhada ao longo do tempo, com reavaliações que comparam a dor, a função, a força e o peso ao ponto de partida e ajustam o plano conforme a resposta. A melhora costuma ser gradual, com dias melhores e piores.

  1. Primeira consulta

    História da dor, exame físico, leitura dos exames de imagem e check-up funcional. Sai daí o plano, com o que vem primeiro.

  2. Fase inicial

    Começam o fortalecimento, os ajustes de rotina e o cuidado com o peso e a glicemia. Os procedimentos entram quando indicados.

  3. Reavaliações

    Dor, função e composição corporal são comparadas com o início. O que funcionou continua; o que não ajudou é revisto.

  4. Manutenção

    O foco passa a ser manter a força e os hábitos conquistados, com retornos mais espaçados e um plano para as fases de mais dor.

Mitos que atrapalham o tratamento

  • "Exercício gasta a articulação": o exercício orientado reduz a dor e melhora a função na artrose de joelho [6]. O que costuma piorar a dor com o tempo é a inatividade.
  • "Artrose é coisa da idade, não tem o que fazer": a artrose fica mais comum com a idade [1], mas dor e função podem melhorar com um plano bem conduzido.
  • "Se o raio X piorou, a dor vai piorar": imagem e dor andam separadas mais vezes do que se imagina [3].

Glossário da artrose

Osteoartrite
Outro nome da artrose: doença da articulação inteira, com desgaste da cartilagem e mudanças no osso, na membrana sinovial e nos músculos.
Cartilagem
Tecido liso que reveste a ponta dos ossos e permite que deslizem um sobre o outro.
Membrana sinovial
Camada que reveste a articulação por dentro e produz o líquido que a lubrifica.
Osteófito
Crescimento de osso na borda da articulação, o "bico de papagaio".
Viscossuplementação
Infiltração de uma substância viscosa dentro da articulação, usada no tratamento da artrose.

Perguntas frequentes sobre o tratamento da artrose

Qual é o tratamento da artrose?

A base do tratamento é informação sobre a doença, exercício com fortalecimento e perda de peso quando há excesso. Remédios, PRP, ozonioterapia e procedimentos guiados por ultrassom podem entrar como complemento, escolhidos na avaliação. A cirurgia é considerada quando a dor e a limitação continuam importantes apesar desse tratamento.

Artrose tem tratamento?

Sim. A artrose é uma condição de longo prazo, mas a dor e a função podem melhorar com um plano que combina fortalecimento, cuidado com o peso e com os fatores que mantêm a dor, como glicemia, inflamação e sono. A resposta varia de uma pessoa para outra e é acompanhada nas reavaliações.

Quem tem artrose pode fazer exercício?

Pode e deve, com orientação. O exercício é parte central do tratamento e reduz a dor e melhora a função na artrose de joelho. A carga aumenta aos poucos, e um desconforto passageiro no começo é comum.

O PRP serve para artrose?

A artrose de joelho é uma das situações em que o PRP pode ser considerado, sempre como complemento do fortalecimento e do cuidado com o peso. Os estudos têm resultados variados, por isso a indicação é feita em casos selecionados, depois do exame físico e da imagem.

Preciso levar exames de imagem para a consulta?

Se você já tem raio X, ultrassom ou ressonância da articulação, leve os laudos e as imagens. Eles são lidos junto com o exame físico e evitam repetir exames sem necessidade.

Retrato do Dr. Leonardo Higashi como revisor médico dos artigos da Clínica Higashi Londrina

Revisão médica

Dr. Leonardo Higashi — MÉDICO — CRM-PR 25067

Endocrinologia e Metabologia (RQE 16677) · Nutrologia (RQE 2685) · Clínica Médica (RQE 15389)

Médico especialista em Endocrinologia e Metabologia, Nutrologia e Clínica Médica e diretor médico da Clínica Higashi Londrina desde 2009. Tem formação complementar em medicina funcional, prática ortomolecular, endocrinologia do envelhecimento e medicina esportiva, e é membro e professor da Academia Brasileira de Medicina Funcional Integrativa.

Conheça o Dr. Leonardo Higashi
Referências
  1. GBD 2021 Osteoarthritis Collaborators. Global, regional, and national burden of osteoarthritis, 1990-2020 and projections to 2050: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2021. Lancet Rheumatol. 2023;5(9):e508-22. doi:10.1016/S2665-9913(23)00163-7
  2. Hunter DJ, Bierma-Zeinstra S. Osteoarthritis. Lancet. 2019;393(10182):1745-59. doi:10.1016/S0140-6736(19)30417-9
  3. Bedson J, Croft PR. The discordance between clinical and radiographic knee osteoarthritis: a systematic search and summary of the literature. BMC Musculoskelet Disord. 2008;9:116. doi:10.1186/1471-2474-9-116
  4. Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, Arden NK, Bennell K, Bierma-Zeinstra SMA, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-89. doi:10.1016/j.joca.2019.06.011
  5. Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, Oatis C, Guyatt G, Block J, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation guideline for the management of osteoarthritis of the hand, hip, and knee. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(2):149-62. doi:10.1002/acr.24131
  6. Fransen M, McConnell S, Harmer AR, Van der Esch M, Simic M, Bennell KL. Exercise for osteoarthritis of the knee: a Cochrane systematic review. Br J Sports Med. 2015;49(24):1554-7. doi:10.1136/bjsports-2015-095424
  7. Messier SP, Gutekunst DJ, Davis C, DeVita P. Weight loss reduces knee-joint loads in overweight and obese older adults with knee osteoarthritis. Arthritis Rheum. 2005;52(7):2026-32. doi:10.1002/art.21139
  8. Louati K, Vidal C, Berenbaum F, Sellam J. Association between diabetes mellitus and osteoarthritis: systematic literature review and meta-analysis. RMD Open. 2015;1(1):e000077. doi:10.1136/rmdopen-2015-000077
  9. Sconza C, Respizzi S, Virelli L, Vandenbulcke F, Iacono F, Kon E, et al. Oxygen-ozone therapy for the treatment of knee osteoarthritis: a systematic review of randomized controlled trials. Arthroscopy. 2020;36(1):277-86. doi:10.1016/j.arthro.2019.05.043
  10. Skou ST, Roos EM, Laursen MB, Rathleff MS, Arendt-Nielsen L, Simonsen O, et al. A randomized, controlled trial of total knee replacement. N Engl J Med. 2015;373(17):1597-606. doi:10.1056/NEJMoa1505467

As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.