Em resumo
- Por que a ferida não fecha: circulação fraca, glicemia alta, infecção, pressão repetida sobre o local e falta de nutrientes travam a cicatrização, e um fator costuma puxar o outro.
- Como o ozônio entra: na Clínica Higashi Londrina, ele é aplicado sobre a ferida, em sistema fechado, ele age sobre os microrganismos da superfície e estimula a resposta de reparo do tecido.
- O que se sabe: há sinais de benefício em feridas crônicas, mas os estudos são pequenos e variados, e a diretriz internacional do pé diabético não recomenda usar gases como o ozônio no lugar do cuidado padrão.
- Como a clínica usa: como apoio ao cuidado da ferida, junto com o tratamento da causa: glicemia, circulação, alívio da pressão e nutrição.
- O que é acompanhado: tamanho, aparência do fundo, secreção, bordas e pele ao redor da ferida, além da glicemia e da rotina de cuidados em casa.
Uma ferida que não fecha depois de semanas cansa, preocupa e muda a rotina: curativos todos os dias, cuidado para não pisar, medo de piorar. Quem passa por isso costuma ouvir falar da ozonioterapia e quer saber se ela ajuda. Na Clínica Higashi Londrina, a ozonioterapia é usada sobre a pele, em feridas que demoram a cicatrizar, sempre junto com o cuidado da causa que trava a cicatrização. Este artigo explica por que algumas feridas não fecham, como o ozônio age, o que os estudos mostram com as suas ressalvas e o que a equipe acompanha. Para o panorama completo do tratamento, o guia da ozonioterapia explica como o ozônio medicinal é produzido e usado.
Por que algumas feridas demoram tanto a cicatrizar?
Uma ferida demora a cicatrizar quando algum fator trava uma das etapas naturais do reparo, e os mais comuns são a circulação fraca, a glicemia alta, a infecção, a pressão repetida sobre o local e a falta de nutrientes [1]. Em geral, mais de um desses fatores está presente ao mesmo tempo.
A cicatrização acontece em quatro fases: a parada do sangramento, a inflamação, que limpa a ferida, a formação de tecido novo e o remodelamento, que deixa a cicatriz mais firme. Cada fase prepara a seguinte.
“Para que uma ferida cicatrize, as quatro fases precisam acontecer na sequência e no tempo certos.”
Guo e DiPietro, 2010 [1]
Na ferida crônica, o processo costuma ficar parado na fase inflamatória. O tecido não avança para a formação de pele nova, e a ferida permanece aberta.
O que costuma travar a cicatrização
- Pouco oxigênio no tecido: quando a circulação é fraca, o sangue leva menos oxigênio e menos nutrientes até a ferida [1].
- Glicemia alta: o açúcar elevado no sangue prejudica as células de defesa e a formação de tecido novo [1].
- Infecção: bactérias na ferida mantêm a inflamação acesa e consomem recursos que o tecido usaria para se reparar [1].
- Pressão e atrito: pisar sobre a ferida, um calçado apertado ou ficar muito tempo na mesma posição machucam de novo o tecido que estava se formando.
- Nutrição: proteínas, vitaminas e minerais são a matéria-prima do reparo, e a falta deles atrasa a cicatrização [2].
- Outros fatores: idade, tabagismo, excesso de peso, estresse e alguns medicamentos em uso também interferem [1].
Um puxa o outro
No pé de quem tem diabetes, esses fatores costumam aparecer juntos. A glicemia alta ao longo dos anos afeta os nervos, e o pé perde parte da sensibilidade. A pessoa não sente o calo ou o sapato que machuca, continua pisando e a ferida se abre. Se a circulação também estiver comprometida, o tecido recebe menos oxigênio para se reparar. A doença arterial periférica, que estreita as artérias das pernas, está presente em até metade das pessoas com úlcera no pé ligada ao diabetes [3].
Como o ozônio age sobre uma ferida?
Sobre a ferida, o ozônio age de duas formas: tem efeito desinfetante na superfície e provoca um estímulo oxidativo leve, que ativa a resposta de reparo do próprio tecido [4]. Os dois efeitos se somam ao cuidado local da ferida.
Ação sobre os microrganismos
O ozônio é um gás muito reativo. Em contato com a superfície da ferida, ele tem efeito desinfetante, o que ajuda a reduzir a carga de microrganismos que mantém a inflamação [4]. Isso não substitui o tratamento de uma infecção já instalada, que é avaliado na consulta.
Estímulo ao reparo
Em dose baixa, o ozônio funciona como um pequeno desafio para o tecido, que responde ativando defesas antioxidantes e sinais de reparo [4]. Um estudo randomizado com 50 pessoas com diabetes e úlcera no pé comparou o tratamento padrão sozinho com o tratamento padrão somado ao ozônio. No grupo do ozônio, as biópsias mostraram mais fatores de crescimento, proteínas que estimulam a formação de vasos e de tecido novo, já nas primeiras semanas, e as feridas diminuíram mais [5].
Um detalhe importante desse estudo
O ozônio foi somado ao tratamento padrão, e não usado no lugar dele. É esse o desenho que se repete nos estudos com resultados favoráveis e é assim que ele entra no plano.
O que os estudos mostram sobre a ozonioterapia em feridas?
Os estudos mostram sinais de benefício da ozonioterapia na cicatrização de feridas crônicas, mas são pequenos, variados entre si e de qualidade limitada, e por isso as conclusões ainda são cautelosas. Saber em que ponto está a pesquisa ajuda a ter expectativas realistas.
Feridas crônicas em geral
Uma revisão sistemática de 2018 reuniu nove estudos randomizados, com 453 pacientes com feridas crônicas tratadas com ozônio sobre a pele. No conjunto, houve melhora no fechamento das feridas com o ozônio, mas sem prova conclusiva de que ele seja superior ao tratamento padrão [4]. Uma meta-análise de 2026, com 27 estudos randomizados e 1.673 participantes, mostrou que as terapias com gases, entre elas o ozônio, aumentaram a chance de cicatrização completa em relação ao cuidado padrão. Os autores encontraram grande variação entre os estudos e sinais de viés de publicação, e recomendam aplicar os resultados com cautela [6].
Pé diabético
A revisão da Cochrane sobre ozônio nas úlceras do pé de quem tem diabetes encontrou três estudos pequenos, com 212 participantes, e concluiu que não era possível tirar conclusões firmes sobre o efeito [7]. A diretriz internacional mais recente sobre o pé diabético, de 2023, avaliou os estudos com gases como o ozônio, considerou a evidência de baixa certeza e orienta não usá-los como alternativa ao cuidado padrão para a cicatrização dessas úlceras [8].
Essa orientação reforça um ponto que vale para qualquer ferida: o ozônio pode ser um apoio, mas a base do tratamento é o cuidado padrão, que inclui o cuidado local da ferida, o alívio da pressão, o controle da infecção, a avaliação da circulação e o controle metabólico [3].
| Situação | O que os estudos mostram | Estágio da evidência |
|---|---|---|
| Feridas crônicas em geral | Melhora no fechamento das feridas com o ozônio somado ao cuidado [4,6] | Revisões com estudos pequenos e muito diferentes entre si |
| Úlcera do pé diabético | Sinais de benefício em estudos isolados, sem conclusão firme nas revisões [5,7] | Evidência de baixa certeza; diretriz não recomenda gases no lugar do cuidado padrão [8] |
| Mecanismo | Ação sobre microrganismos e aumento de fatores de crescimento no tecido [4,5] | Estudos clínicos e de laboratório |
O que os estudos ensinam sobre a forma de fazer o tratamento?
Os estudos ensinam que o ozônio rende mais quando é somado ao cuidado padrão, feito com regularidade até o fim do plano e iniciado antes que a ferida cresça. Essa leitura, menos comentada, ajuda a entender por que a adesão ao plano conta tanto quanto a técnica.
Completar o plano faz diferença
Um estudo duplo-cego de 2011 comparou, em 61 pessoas com úlcera no pé ligada ao diabetes, o ozônio com uma aplicação simulada, os dois somados ao tratamento convencional. Olhando o grupo todo, a diferença no fechamento das feridas não foi significativa. Entre os que completaram todo o protocolo, porém, mais feridas fecharam no grupo do ozônio, e a diferença foi maior nas feridas menores [9].
O resultado tem limites: quem completa um tratamento costuma ser também quem cuida melhor do pé no dia a dia. Mesmo assim, a mensagem prática é clara.
- Começar cedo: uma ferida que não melhora em algumas semanas merece avaliação, antes de crescer ou aprofundar.
- Manter a regularidade: faltar às sessões ou interromper o plano no meio reduz a chance de aproveitar o que ele oferece.
- Cuidar em casa: o curativo, o calçado e a forma de pisar entre uma sessão e outra contam tanto quanto a sessão.
- Tratar a causa junto: nos estudos favoráveis, o ozônio foi somado ao cuidado padrão, nunca usado sozinho [5,9].
Por que o cuidado da causa vem junto com o ozônio?
O cuidado da causa vem junto porque o ozônio age na superfície da ferida, mas quem decide se ela fecha é o que acontece no organismo: o açúcar no sangue, a circulação, a pressão sobre o local e a nutrição. Tratar só a ferida e deixar a causa como está costuma levar a uma cicatrização lenta ou a uma nova ferida no mesmo lugar.
Nas úlceras do pé ligadas ao diabetes, a volta da ferida depois de fechada é frequente, e por isso a prevenção continua depois da cicatrização [10].
O que entra no plano
Glicemia no alvo
A glicemia alta atrapalha cada fase da cicatrização. Quando ela está fora do alvo, o acompanhamento de pré-diabetes e diabetes com o endocrinologista faz parte do mesmo plano da ferida.
Circulação avaliada
Pulsos fracos, pé frio ou dor ao caminhar sugerem circulação comprometida, que muda o plano e pode pedir avaliação específica [3].
Alívio da pressão
Calçado adequado, palmilhas ou mudanças na forma de pisar e de se posicionar tiram a carga do local que está cicatrizando [3].
Nutrição para o reparo
Proteína suficiente e a correção de deficiências de vitaminas e minerais dão ao corpo a matéria-prima da pele nova [2].
Infecção sob controle
Sinais de infecção são avaliados em cada retorno, e o tratamento dela vem antes de qualquer outra etapa.
Na Clínica Higashi Londrina, esse olhar para o conjunto, que a clínica chama de equilíbrio global da saúde, vale para a ferida como vale para a dor: glicemia, peso, sono, inflamação e medicamentos em uso entram na avaliação, porque um fator influencia o outro. A ferida é uma das situações em que a ozonioterapia entra no plano, ao lado da ozonioterapia na dor de articulações, coluna e tendões.
Como é a aplicação da ozonioterapia na ferida?
Na ferida, a ozonioterapia é aplicada sobre a pele, em sistema fechado: a região é envolvida para que a mistura de oxigênio e ozônio fique em contato com a ferida sem escapar para o ar, e em geral a aplicação não dói. Não há agulha nessa forma de uso.
- Avaliação da ferida. A equipe observa o tamanho, o fundo, as bordas, a secreção e a pele ao redor, e pergunta como foram os dias desde a última sessão.
- Limpeza. A ferida é limpa antes da aplicação, para que o gás alcance a superfície.
- Aplicação em sistema fechado. A região é envolvida com material próprio, e a mistura, produzida na hora na dose definida, fica em contato com a ferida pelo tempo previsto no plano.
- Curativo e orientações. A ferida é coberta de novo e você recebe as orientações de cuidado em casa até a próxima sessão.
O ozônio nunca é inalado, porque irrita as vias respiratórias. Por isso a aplicação é feita em sistema fechado, longe do rosto. O número de sessões e o intervalo entre elas são definidos no plano de cada pessoa e revistos conforme a evolução.

Quais sinais a equipe acompanha ao longo do tratamento?
Ao longo do tratamento, a equipe acompanha o tamanho da ferida, a aparência do fundo, a secreção, as bordas e a pele ao redor, além da glicemia e da rotina de cuidados em casa. São esses sinais que mostram se o plano está funcionando ou se precisa de ajuste.
Sinais de que a ferida avança
- A ferida diminui de tamanho e de profundidade entre as medidas.
- O fundo fica vermelho vivo e granuloso, sinal de tecido novo.
- As bordas se aproximam e a pele nova avança a partir delas.
- A secreção e o odor diminuem.
Sinais que pedem ajuste no plano
- O tamanho não muda depois de algumas semanas de tratamento.
- O fundo fica amarelado, escuro ou pálido.
- A pele ao redor fica mais vermelha, quente ou inchada.
- A secreção ou o cheiro aumentam, ou a dor muda.
Fotografar a ferida no mesmo ângulo e anotar a glicemia entre as sessões ajuda muito nas reavaliações. Qualquer mudança na lista da direita vale ser contada à equipe assim que você notar, sem esperar o próximo retorno.
Glossário das feridas e da cicatrização
- Ferida crônica
- Ferida que não avança pelas fases normais da cicatrização no tempo esperado e permanece aberta.
- Tecido de granulação
- Tecido novo, vermelho vivo e granuloso, que preenche o fundo da ferida quando a cicatrização avança.
- Fatores de crescimento
- Proteínas que estimulam a formação de vasos e de tecido novo durante o reparo.
- Doença arterial periférica
- Estreitamento das artérias das pernas, que reduz a chegada de sangue e de oxigênio aos pés.
- Neuropatia
- Lesão dos nervos que reduz a sensibilidade, comum no pé de quem tem diabetes há muitos anos.
- Alívio da pressão
- Medidas que tiram a carga do local da ferida, como calçados, palmilhas e mudanças na forma de pisar.
Perguntas frequentes sobre ozonioterapia em feridas
A ozonioterapia ajuda feridas que demoram a cicatrizar?
Os estudos mostram sinais de benefício na cicatrização de feridas crônicas quando o ozônio é somado ao cuidado padrão, mas as pesquisas são pequenas e variadas, e as conclusões ainda são cautelosas. Por isso a ozonioterapia entra como apoio, junto com o tratamento da causa da ferida: glicemia, circulação, alívio da pressão, infecção e nutrição.
A ozonioterapia funciona no pé diabético?
Há estudos com resultados favoráveis no pé diabético, mas a revisão da Cochrane não conseguiu tirar conclusões firmes, e a diretriz internacional de 2023 orienta não usar gases como o ozônio no lugar do cuidado padrão. Quando entra no plano, o ozônio é um complemento ao cuidado da ferida e ao controle da glicemia, da circulação e da pressão sobre o pé.
A aplicação de ozônio na ferida dói?
Em geral, não. Na ferida, a mistura é aplicada sobre a pele, em sistema fechado, sem agulha. A limpeza da ferida antes da aplicação pode incomodar um pouco, conforme a sensibilidade do local.
Quantas sessões são necessárias para a ferida fechar?
Não existe um número fixo. A quantidade de sessões e o intervalo entre elas dependem do tipo de ferida, da causa e da resposta, e são revistos nas reavaliações, a partir da medida e da aparência da ferida.
Preciso controlar o diabetes para tratar a ferida?
Sim, o controle da glicemia faz parte do tratamento da ferida, porque o açúcar alto no sangue prejudica as defesas e a formação de tecido novo. Quando a glicemia está fora do alvo, o acompanhamento com o endocrinologista entra no mesmo plano.
Referências
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- Schaper NC, van Netten JJ, Apelqvist J, Bus SA, Fitridge R, Game F, et al. Practical guidelines on the prevention and management of diabetes-related foot disease (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev. 2024;40(3):e3657. doi:10.1002/dmrr.3657
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- Chen P, Vilorio NC, Dhatariya K, Jeffcoate W, Lobmann R, McIntosh C, et al. Guidelines on interventions to enhance healing of foot ulcers in people with diabetes (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev. 2024;40(3):e3644. doi:10.1002/dmrr.3644
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As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.




